quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quem é o culpado? Se é que tem...




Esses dias atrás em uma das listas de discussão sobre parto natural que participo li uma mensagem que dizia mais ou menos assim:
Mãe tinha informação sobre os benefícios do PN, mas acreditava no GO que dizia que tentaria o PN, mas dava fortes indícios de que empurraria uma cesárea no fim das contas.  E claro que acabou dizendo que a mãe era muito velha para parir, pois tinha 35 anos e o útero dela não tinha força para um trabalho de parto.  No fim, a pessoa que escreveu essa mensagem (que estava muito chateada por causa dessa amiga) se questiona se ignorância tem cura!
Confesso que dei risada quando li, pois dá mesmo uma raiva quando a gente informa a pessoa, mostra os benefícios, abre os olhos dela, mostra que o médico vai enganá-la e no fim ela acredita em um absurdo desses!
Minha resposta para ela foi que o "errado" nessa história era o médico mentiroso.  Depois que enviei a mensagem eu fiquei pensando, pensando e juro que ainda não cheguei a nenhuma conclusão.
Temos por aí espalhados nas clínicas, consultórios e hospitais de todo o Brasil, milhares de médicos pilantras dotados do poder do jaleco branco.  Que poder é esse?  É o poder que ele acredita ter (e o tem muitas vezes) de fazer as pessoas acreditarem no que ele quer que acreditem.  Por ele ter estudado, por ele usar branco e por ele estar em uma posição de vantagem, ele acredita que pode manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência e a seu favor sempre!  Se todos os profissionais do Brasil acreditassem ter tal poder e o usassem para o bem, o mundo seria melhor...  Afinal, um professor estudou tanto quanto um médico estudou.  Sim!!!  Um professor estudou e estuda diariamente quando passa e repassa a matéria para seus alunos.  Um advogado estudou e estuda seus casos sempre que precisa.  Um engenheiro civil tem tanto poder sobre uma construção quanto um médico cardiologista tem sobre o coração de um paciente.  A grande diferença é que a maioria dos engenheiros não usam o seu conhecimento em plantas de residência a seu próprio favor somente!  Se eu pedir uma casa com dois dormitórios e simples, o engenheiro tende a fazer essa casa e não dizer que uma casa com 4 dormitórios seria mais apropriada para mim, pois com dois quartos a casa vai cair em cima da minha cabeça por faltas de paredes que a sustentem.  Já um médico usa o tal poder dele exatamente da pior forma possível.
-Doutor, eu quero um parto normal!
-Mas na sua idade não dá!  Seu útero é velho pra um parto normal.
(engraçado que o útero é velho para parir, mas não para engravidar...)
Acho que essa tendência a esse mal do jaleco branco acontece por que o médico tem nas mãos a ilusão da vida do paciente.  Acho que me expressei mal:  eu quis dizer que o paciente tem a ilusão de que o médico tem sua vida nas mãos.  O paciente se entrega completamente para aquela pessoa sentada do outro lado da mesa usando um jaleco branco.  É como se ele passasse a não saber de mais nada e só o doutor sabe agora!  Eu chego ao médico dizendo que minha cabeça dói.  O doutor diz que é por que eu tenho enxaqueca.  Eu acredito, afinal o doutor disse isso.  Mas o doutor não sabe que no meu trabalho eu uso meu cabelo preso em um coque apertado o dia inteiro e que na realidade minha dor de cabeça pode estar vindo da forma com que eu prendo o cabelo.  O doutor não sabe disso pq não chegou nem a fazer perguntas simples sobre mim, mas mesmo assim eu acredito nele mais do que acredito em mim, que me conheço e que no fundo suspeito da origem da minha dor...
O médico sabe desse poder e o usa muito bem.  O usa exatamente como os nossos políticos.  Que diferença tem entre os políticos corruptos que roubam dinheiro da verba pública para educação e o médico que rouba o parto da sua paciente inventando um problema que não existe?  Alguém por favor pode me dizer qual a diferença entre eles?  Ambos são mentirosos e abusam do seu poder e do seu cargo.
Mas agora eu vou mudar um pouco de lado.  Deixemos os médicos pilantras pra lá e vamos falar dos pacientes.  Muitos pacientes (a grande maioria) sofre do mal do jaleco branco tbm!  Mas os sinais e sintomas são diferentes!  A pessoa que sofre desse mal acredita que qualquer um que use branco poderá salvar-lhe a vida!  E quando digo qualquer um, quero dizer qualquer um mesmo!  Uma amiga minha que usava branco em um metrô em SP foi abordada por um senhor que tinha alguma coisa no olho e queria saber se ela poderia dizer se ele ia ficar cego ou não!  Ela disse que apesar de usar branco não era mãe de santo nem vidente e ele olhou espantado pela resposta dela e disse que achava que ela fosse médica!  Sim!  Isso aconteceu!
Então acontece que as pessoas acham que um médico estudou mais do que ele, não importa o que ele estudou na vida!  Um médico entende de finanças, doenças, problemas de família, morte, política, remédios, futebol, distensões musculares, copa do mundo, inflamações, moda, gestação, decoração, micoses, novela, raio-x e por aí vai.  Um médico entende de tudo sempre!  E com essa cabeça o paciente chega no consultório do doutor.  No momento que ele passa pela porta da recepção seu corpo, suas dores, emoções e doenças não lhe pertencem mais.  Passam a ser tudo do doutor.  Afinal o doutor estudou para entender de tudo.  O pobre médico que está do outro lado da mesa, que já sofre do mal do jaleco branco e acha que sabe tudo, se depara com um paciente que tbm sofre da mesma doença e acha que e o doutor sabe tudo.  Pronto!  Formou-se a confusão.  O paciente deixa sua vida na mão do doutor, que por sua vez não a recusa.  A usa da forma que lhe convém!  O paciente deixa no consultório, entre aquelas 4 paredes, uma mesa e uma maca, seus medos, suas inseguranças, suas dores e doenças.  O doutor por sua vez, recolhe somente o que ele quer, afinal o paciente confia nele e tendo a confiança, ele pode fazer o que quiser!  O paciente tira de si toda a responsabilidade da sua mãos e a joga nas mãos do doutor.  Ele entrega a sua vida nas mãos de uma outra pessoa!  E eu me pergunto: será que aquele jovem estudante do curso pré vestibular que sonha em fazer medicina pensa que um dia ele será responsável por decidir a vida de uma pessoa?  Ou será que ele somente sonha em ter conhecimento para curar e trazer vidas?  Ou será ainda que ele somente imagina que poderá fazer o bem sem olhar a quem?  O que será que passa na cabeça do jovem vestibulando?  
Agora colocando o paciente e o médico juntos, em um mesmo nível, sem pré conceitos, vamos analisar:
-Médico que usa seus poder da forma que bem quiser, mesmo que tenha que mentir para isso.
-Paciente que larga sua vida e seu corpo nas mãos de outra pessoa e tira de si toda a responsabilidade que tem sobre si mesmo.
Quem está errado?  Quem é o culpado por cesáreas enganosas?  O médico enganador ou o paciente que se deixa enganar?
Acho que nunca vou chegar a uma conclusão.
Mas minha opinião é que as pessoas deveriam parar de deixar suas vidas nas mãos dos outros.  Eu não confio cegamente as minhas unhas das mãos à minha manicure.  Eu olho atentamente cada movimento do alicate e do pincel e ainda reclamo quando ela dá um beliscãozinho ou pinta mal ou esquece de tirar a pontinha.  Pq deixaria a minha vida na mão de uma pessoa que eu vejo algumas vezes por ano e mal lembra quem eu sou, não conhece minha família nem meus hábitos?  As pessoas deveriam questionar mais seus médicos.  Não ter medo de pedir uma segunda, terceira ou quantas opiniões forem preciso.  A frase: "o doutor disse" deve ser abolida da nossa vida!  Não é "vou fazer cesárea pq o doutor disse que meu útero é velho".  Deveria ser assim: "vou fazer cesárea, pois pesquisei, consultei várias opiniões e cheguei a conclusão de que meu útero é velho" (tá, isso não existe, viu?!).  Percebem a diferença?  A primeira pessoa simplesmente deixou a vida dela e o corpo dela para alguém decidir o que é melhor para ela.  A segunda pessoa pesquisou, se informou e chegou a essa conclusão SOZINHA, pois ela é dona do corpo dela.
E minha segunda opinião sobre esse dilema é que os médicos deveriam ter mais respeito pelas vidas que lhes são confiadas e serem menos corruptos como nossos políticos.

Ainda em tempo: existem muitos médico no Brasil que não sofrem do mal do jaleco branco.  Esses, respeitam o paciente e não tomam para si a vida dos outros, mas junto com ele mostra que quem manda e quem escolhe o que é melhor é o próprio paciente.

4 comentários:

DaniSapoo disse...

Lari...
Bem dito! Gostei do post. Eh por aih. Eu me revolto com esses comentarios de "o dotor falou!"
Beijos...

Edna Corsi disse...

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Lorraine disse...

ótimo post. tenho pavor de algumas pessoas que dizem o que seus ginecologistas fizeram "para lhes salvar" durante o parto quando na verdade era tudo enrolação e a pessoa prefere se manter ignorante.

mas tbm questiono a questão do elitismo do parto em algumas regiões do nosso país. eu por exemplo tive 2 cesáreas. na primeira fui convencida de fazer a cirurgia sem mentiras com o argumento da praticidade: acho que o médico percebeu o meu pavor diante da situação que eu estava (mãe solteira com 19 anos). na segunda, 9 anos depois, gravidez planejada e informada sobre partos, violencias e tudo o mais me vi diante de uma situação de conflito: no meu plano de saúde tem poucos GOs, fui em alguns, pesquisei sobre outros. O único que efetivamente é ativista do parto natural só atende particular. o preço era alto, não condizia com o que eu poderia pagar. preferi ir no cesarista mais experiente, sem culpas. ainda tenho uma pulga atrás da orelha, a mãe natureza ainda me chama pra parir, mas não tenho planos de ter outro filho.
o errado são os médicos, eles deveriam brigar pelos direitos de defender a vida diretamente com os planos de saúde. nós nos informamos, nos preparamos, mas na hora de parir continuamos nas mãos deles, a não ser que paguemos com dinheiro.

Mariana disse...

Eu acho que um tem que escolher muito bem aos médicos, sobre tudo de cardiologia em porto alegre porque que tenham um titulo não quer dizer que sejam bons profissionais.
Antes de pedir uma consulta sempre pergunto a minha família ou amigos que doutor me recomendam para cada especialidade.